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Aeroportos: Atrasos ainda recorrentes



O Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek registrou ontem o maior índice no país de voos que não decolaram no horário marcado: 27,7% do total. Situação melhorou se comparada a segunda-feira, quando 45% tiveram problemas .

Thaís Paranhos .

O que deveria ser um momento de descanso e descontração ao lado de familiares e amigos tem se tornado um martírio para quem vai viajar no início deste ano. Passageiros brasilienses ou em conexão na cidade enfrentam filas, atrasos e cancelamentos de voos, falta de informação e extravios de malas nos primeiros dias de 2012. A incerteza de chegar ao destino e aproveitar os dias de folga tem deixado os viajantes apreensivos. O Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek registrou ontem o maior número de voos atrasados pelo menos 30 minutos em todo o país. Dos 148 previstos para até as 18h, 41 atrasaram, ou 27,7% do total. Isso representa cerca de 10% dos atrasos em todos os terminais do país, segundo a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero).

Na última segunda-feira, a situação no aeroporto de Brasília foi ainda pior. O mau tempo provocou atrasos e cancelamentos em 67 voos, ou quase 45% das partidas. O fechamento dos terminais Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e de Goiânia também serviu para agravar o problema na capital federal. Os passageiros de uma companhia aérea com destino a Rio de Janeiro e São Paulo só conseguiram embarcar na manhã de ontem e precisaram de muita paciência para enfrentar a madrugada no terminal. Funcionários no balcão da empresa informaram que a situação se regularizou no fim da manhã.

O atraso pegou a estilista Camila Forestiero, 29 anos, de surpresa. Ela sairia de Campinas (SP) na manhã de ontem com destino a Brasília, mas não conseguiu embarcar. Camila remarcou a passagem e, novamente, não entrou no avião porque o voo foi cancelado. "Precisava buscar uns documentos aqui e deveria chegar por volta das 10h. Só desci em Brasília às 13h30. Estou desde as 5h na rua e não almocei. Fico preocupada com a volta para casa ainda hoje", contou a estilista.

Não bastassem os atrasos e cancelamentos de voos, houve quem enfrentasse outros problemas no aeroporto. A jornalista Maria Félix Fontelli, 55 anos, moradora de Águas Claras, saiu do Rio de Janeiro por volta das 19h da última segunda-feira, com destino à capital federal e, ao desembarcar, surpreendeu-se ao ser informada de que a bagagem havia sumido. "Ficamos muito tempo em frente à esteira para pegar as malas e elas não vieram. Isso ocorreu com pelo menos 15 pessoas", contou. Funcionários da companhia aérea entraram em contato com Maria ontem para avisar que os pertences haviam chegado. "Minha mala estava toda rasgada. Eles não explicaram porque estava desse jeito nem pediram desculpa pelo ocorrido", lamentou.

Reclamações

Em dezembro de 2011, o Juizado Especial do Aeroporto do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) fez 706 atendimentos a passageiros. São reclamações sobre atrasos e cancelamentos de voos e extravios de bagagem, por exemplo. Desse total, 423 foram para informações aos clientes das companhias aéreas que se sentiram lesados, 176 conciliações e 55 processos encaminhados para decisão judicial. O restante se refere a desistências e processos de outros estados. Somente nos primeiros três dias de janeiro, 38 pessoas buscaram orientação no juizado. O conciliador Renê Cácio Gomes da Silva explicou que, se o passageiro se sentir prejudicado, deve buscar os direitos nas empresas. Se não conseguir resultado, pode procurar o juizado ou a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

81 cancelamentos no país

Em todo o país, dos 2.325 voos programados até as 19h de ontem, 437 saíram com atrasos superiores a 30 minutos. Esse número representa 18,8%. Do total de partidas programadas, 81 foram canceladas. No Aeroporto de Guarulhos (SP), a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) registrou 25 voos atrasados de 205. Em Congonhas, também em São Paulo, 24 das 200 partidas saíram pelo menos 30 minutos depois do previsto. Na última segunda-feira, 24% dos voos domésticos e internacionais foram cancelados.

No Rio de Janeiro, o Galeão registrou 27 atrasos entre os 147 voos que decolaram ontem até as 19h e, no Aeroporto Santos Dumont, 18 dos 139 estavam atrasados. Dez partidas foram canceladas. Por meio de nota, a Secretaria de aviação Civil (SAC) informou que monitora a situação dos voos nos 66 aeroportos administrados pela Infraero para garantir a tranquilidade nos terminais. A Agência Nacional de aviação Civil (Anac) mantém fiscalização intensiva nos seis principais aeroportos do país para garantir os direitos dos passageiros.

E se fosse na Copa?

Renato Alves

Apesar dos propagados planos emergenciais e preventivos dos responsáveis pelo setor de aviação, o Brasil não escapou do tradicional apagão aéreo de fim de ano. Mesmo sem greve de aeronaves, aeroviários e controladores de voo, os passageiros enfrentaram transtornos, como filas quilométricas, extravios de bagagens, atrasos e cancelamentos de embarques muito além da média. E Brasília, por ter um aeroporto com muitas conexões, acumulou o maior número de problemas.

Autoridades tentam nos convencer que toda a culpa vem das chuvas que castigam Minas Gerais e Rio de Janeiro. As mesmas águas que param rodovias, derrubam prédios e tiram vidas impedem os voos, segundo esse pessoal. Mas, como podemos conferir no Correio de ontem e de hoje, as maiores dores de cabeça de quem usa os nossos aeroportos decorrem da falta de infraestrutura dos terminais e da incompetência e do descompromisso com os clientes por parte das companhias aéreas.

Atrasos e cancelamentos são frutos da falta de planejamento e de pessoal das empresas que dominam o setor no Brasil, graças à baixa concorrência. As áreas de desembarque de todos os aeroportos vivem entupidas por conta da péssima logística nos pátios das aeronaves, do escasso espaço e da falta de esteiras nos terminais. Alguns, aumentados com puxadinhos, obras provisórias.

É difícil se deparar com tal cenário e não lembrar-se da Copa do Mundo que virá daqui a dois anos. E, com ela, 3 milhões de turistas, conforme previsto pelo governo brasileiro. Se esse quadro for comparado ao África do Sul, sede do mais recente mundial, o Brasil e a Fifa têm motivos de sobrar para se preocuparem.

Tive o privilégio de desembarcar no país de Nelson Mandela por duas vezes. A primeira, três anos antes da Copa, e a segunda, um mês antes, quando por lá permaneci por 90 dias, cobrindo o evento. País mais pobre que o Brasil e com nenhuma tradição em eventos internacionais, a África do Sul já tinha, três anos antes da Copa, estradas e aeroportos de padrão europeu. O país que alimentava uma ansiedade, um medo de fazer feio, devido à tão alardeada violência por parte da imprensa internacional, especialmente da inglesa, terminou a Copa sem registro de ocorrência criminal grave, sem apagão aéreo e com enorme orgulho, que contagiou todo o continente.

É fato que, nação sem expressão no universo do futebol, a África do Sul agora conta os prejuízos com seus elefantes brancos. Mas, além de alguns estádios enormes e caros para tão pouca história no futebol, algumas cidades sedes brasileiras e todo o país correm o risco de nem sequer terem o orgulho como legado da Copa de 2014. Graças à incompetência dos nossos governantes e seus apagões.

Fonte: / NOTIMP










The Manhattan Reporter

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