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Gol e Delta: voando em parceria



O acordo da Gol com a americana Delta indica o futuro do setor aéreo, com união de empresas para contornar obstáculos .

Marcelo Sakate .

O transporte aéreo de passageiros no mercado doméstico brasileiro já é o quarto maior do mundo, atrás apenas do americano, do chinês e do japonês. Até o fim do ano, 79 milhões de passageiros terão embarcado em voos internos. Os voos internacionais vêm aumentando, principalmente na rota Brasil-Estados Unidos, na qual o movimento cresceu quase 50% nos últimos cinco anos. É nesse contexto que se insere o acordo revelado na última semana entre a Gol e a americana Delta, a maior companhia aérea do mundo. A americana investirá 100 milhões de dólares na brasileira.

Em troca, terá uma participação de 3% no capital acionário da Gol. A participação de capital externo nas empresas aéreas brasileiras não pode superar 20% - restrição semelhante à existente no mercado americano, cujo limite de capital estrangeiro é de 25%. O principal objetivo da Delta é voar em rotas compartilhadas com a Gol e assim ampliar a sua presença nos céus brasileiros, Hoje, a Delta fica atrás da American, da TAM e da United Continental em número de passageiros transportados entre o Brasil e os Estados Unidos.

A parceria abre aos americanos a oportunidade de driblar certas restrições a investidores estrangeiros no Brasil. Empresas internacionais não podem operar voos locais. Acordos como o da Gol com a Delta, assim como a fusão da TAM com a chilena LAN, anunciada há um ano e ainda sob análise das autoridades regulatórias, simbolizam os rumos do setor aéreo. Essas parcerias são feitas para contornar os limites impostos a empresas estrangeiras e para ampliar a capilaridade de rotas disponíveis. Outra estratégia é participar de uma das três grandes alianças globais: Star Alliance, SkyTeam e Oneworld. As companhias a elas associadas respondem hoje por 85% dos voos entre os Estados Unidos e a Europa.

Ganhar escala e acesso a mercados é imprescindível para sobreviver. "Toda empresa aérea hoje precisa de alianças. Há um número crescente de passageiros, mas não dá para uma empresa voar para todos os destinos", disse a VEJA Leonardo Pereira, vice-presidente financeiro da Gol. Esse é um setor em que, sem eficiência, não se vai longe. O aumento da demanda não é garantia de sobrevivência, dado o peso das despesas operacionais. O combustível de aviação, por exemplo, ficou mais caro na esteira da escalada do petróleo e tornou-se o principal custo de um voo.

As companhias trabalham com margens de lucro apertadas. Apertadas mesmo. Foi de apenas 0,03% a média de lucro anual das grandes nos Estados Unidos, desde que entrou em vigor a desregulamentação do setor aéreo, no governo Ronald Reagan, há trinta anos. Nesse mesmo período, o custo médio dos bilhetes aéreos caiu 50%. Muitas empresas tradicionais e históricas sumiram do mapa - caso clássico da Pan Am -, e até hoje as concordatas têm sido comuns, como a decretada recentemente pela American Airlines.

Com a entrada da Delta, a Gol receberá um reforço de caixa. Em termos estratégicos, a companhia brasileira, que não voa atualmente para os Estados Unidos nem para a Europa, também poderá se beneficiar com a opção natural dos passageiros internacionais da Delta em seus deslocamentos pelo Brasil. O acordo será especialmente vantajoso durante a Copa do Mundo e a Olimpíada. Diz André Castellini, da consultoria Bain & Company: "Viagens de longa distância são complexas e demandam investimentos colossais. A concorrência é maior e se dá e empresas já estabelecidas".

A competição ficará mais acirrada a partir de 2015, quando entrará em vigor o acordo de "céus abertos" firmado pelo governo brasileiro com o americano, que acaba com a limitação de viagens entre os países. Hoje o teto é de 182 voos semanais. Para o consumidor, a parceria entre Gol e Delta, prevista para entrar em vigor no fim de 2012,é boa notícia, pois os programas de milhas serão integrados.

Falta o governo fazer a parte dele. Diz Marcelo Guaranys, presidente da Anac, a agência que regula o setor aéreo no Brasil: "Precisamos expandir a infraestrutura, para que as companhias com menor participação se consolidem, disputando rotas e horários mais rentáveis, acirrando a competição". E o que os passageiros esperam.

Fonte: / NOTIMP










The Manhattan Reporter

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